O Papa à nova arcebispa de Cantuária: avante com o diálogo entre os desafios do mundo

Leão XIV envia uma mensagem de felicitações a Sarah Mullally, a mais alta autoridade espiritual da Igreja Anglicana, por ocasião de sua posse oficial na última quarta-feira. O enviado papal, cardeal Kurt Koch, entregou a carta ao final de uma oração conjunta para celebrar o 60º aniversário do encontro entre Paulo VI e o arcebispo Ramsey em Roma, em 1966.

O Papa Leão XIV enviou uma mensagem, nesta quinta-feira (26/03), à nova arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, Primaz da Igreja Anglicana, que foi oficialmente empossada na última quarta-feira, 25, durante uma cerimônia que contou com a presença dos Príncipes William e Kate e de vários líderes religiosos.

Com 63 anos, casada e mãe de dois filhos, Mullally é a primeira mulher a ocupar este cargo. Em seu sermão, ela falou sobre mulheres na Bíblia que, confiando em Deus, abraçaram um futuro incerto. Ao mesmo tempo, ela reiterou a urgência de sempre buscar a verdade e a justiça na Igreja.

Oração comum

Esta manhã, realizou-se uma oração comum na Catedral de Cantuária, presidida pela nova arcebispa e pelo enviado papal, cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Os dois rezaram lado a lado, ajoelhados, na Capela de Nossa Senhora do Martírio. Foi utilizado o mesmo genuflexório usado no encontro entre João Paulo II e o arcebispo Robert Runcie em 1982. No final da liturgia, o cardeal Koch entregou a carta de felicitações do Papa, na qual Leão XIV recorda o ministério “exigente” do arcebispo, que “tem responsabilidade não só pela Diocese de Cantuária, mas também por toda a Igreja da Inglaterra e pela Comunhão Anglicana como um todo”. Mullally sucede ao arcebispo Justin Welby, que renunciou em 2024. Leão XIV recorda que a nova primaz inicia as suas funções “num momento desafiador da história da família anglicana”. Ele pede ao Senhor que a “fortaleça com o dom da sabedoria”.

“Rezo para que ela seja guiada pelo Espírito Santo ao serviço de suas comunidades e se inspire no exemplo de Maria, Mãe de Deus.”

Koch e Mullally rezando na Capela de Nossa Senhora do Martírio

O encontro entre Paulo VI e Ramsey em Roma em 1966

O Papa volta então no tempo e recorda o encontro “histórico” em Roma, há sessenta anos, entre São Paulo VI e o arcebispo Michael Ramsey. Foi em 1966 e o encontro ocorreu ao longo de dois dias: 23 e 24 de março, este último na Basílica de São Paulo Fora dos Muros. A liturgia de desta quinta-feira quis comemorar este aniversário.

Aquelas mãos que se apertam entre Montini e Ramsey “envolveram católicos e anglicanos numa nova fase do desenvolvimento de relações fraternas, baseadas na caridade cristã”, enfatiza o Papa.

“Aquela nova página de abertura respeitosa deu muitos frutos ao longo das últimas seis décadas e continua a fazê-lo hoje.”

O trabalho da Comissão anglicana e católica

Na mesma ocasião, o Papa e o arcebispo anglicano “também concordaram em iniciar um diálogo teológico”. Assim nasceu a Comissão Internacional Anglicano-Católica (ARCIC) que, “desde sua criação, tem dado uma enorme contribuição para o crescimento da compreensão recíproca”.

“Os frutos deste trabalho precioso nos permitiram testemunhar juntos de forma mais eficaz. Isto é especialmente importante dados os muitos desafios que a nossa família humana enfrenta hoje.”

Um momento de oração em comum

Progresso, não obstante os obstáculos

O Papa Leão XIV diz estar “grato” porque “este importante diálogo continua”. E continua apesar de “o caminho ecumênico nem sempre ter sido isento de obstáculos”, admite o Pontífice. Ele recorda o passado mais recente, ou seja, a relação entre o Papa Francisco e o arcebispo Welby — que também viajaram juntos ao Sudão do Sul em 2023 — que, não obstante os progressos, “reconheceram francamente que novas circunstâncias trouxeram novos desacordos entre nós”. “No entanto, continuamos a caminhar juntos, porque as divergências não nos impedem de nos reconhecermos reciprocamente como irmãos e irmãs em Cristo, por causa do nosso Batismo comum”, observa Leão XIV.

“Por minha parte, acredito firmemente que devemos continuar a dialogar na verdade e amor, porque é somente na verdade e no amor que chegamos a conhecer juntos a graça, a misericórdia e a paz de Deus e, assim, sermos capazes de oferecer esses preciosos dons ao mundo.”

Testemunho de unidade

“A unidade que os cristãos buscam nunca é um fim em si mesma”, conclui o Papa. Ele recorda o Papa Francisco quando, dirigindo-se aos primazes da Comunhão Anglicana em 2024, afirmou que “seria um escândalo se, por causa das divisões, não cumpríssemos nossa vocação comum de dar a conhecer Cristo”.

“Somente através do testemunho de uma comunidade cristã reconciliada, fraterna e unida é que o anúncio do Evangelho ressoará com mais clareza.”

A nova arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally (ANSA)

A delegação católica

A delegação católica em Cantuária, guiada pelo cardeal Koch, é composta pelo arcebispo Flavio Pace, secretário do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos; Martin Brown, oficial; e os cardeais Vincent Nichols e Timothy Radcliffe. Também estão presentes Bernard Longley, arcebispo de Birmingham, copresidente da Comissão de Diálogo Anglicano-Católico (ARCIC); Richard Moth, arcebispo de Westminster; John Wilson, arcebispo de Southwark; Leo William Cushley, arcebispo de St. Andrews e Edimburgo; Kenneth Anthony Adam Nowakowski, bispo da Igreja greco-católica ucraniana no Reino Unido; e Ante Vidović, encarregado de negócios da Nunciatura Apostólica em Londres.

Fonte: Vatican News

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